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quinta-feira, 18 de junho de 2020

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Ele tinha as mãos firmes. E uma presença grande. Sonhou grandes sonhos para mim. Achava que eu seria juíza. Um dia eu quis mesmo ser. Não sei se por ele ou por mim. Mas a vida se encaminhou de trilhar outro caminho. Há tempos não tenho mais esse desejo. Penso que as coisas acontecem como tem que acontecer. Não creio que ele tenha se frustrado por não me ver de toga. Apreciava a minha essência, essa estava de acordo com os sonhos dele para mim. Tínhamos nossas discordâncias. Certa vez ele me disse que eu não podia imaginar o que era para um pai ver a família toda desmoronada. Quando o questionei o que era isso de família desmoronada para ele, a resposta veio rápida: todo mundo separado. Ele era de outra geração, não entendia esse negócio de separar. Eu respondi que isso não era desmoronamento, que era da vida, e que bom que as pessoas não se contentavam mais em manter relações que as faziam infelizes, que o importante era que todos na família tínhamos saúde, um meio de subsistência. Ele podia não concordar, mas me ouvia. 
Na primeira vez em que me separei, ele me disse, muito sério, que marido era um só e que ele não queria conhecer mais nenhum. Quando iniciei meu segundo casamento, ele me perguntou até quando, ao que respondi que enquanto eu estivesse feliz. Mas ele manteve a palavra e nunca quis conhecê-lo. Quando íamos em casa, ele não saia do quarto. Discordávamos, mas nos respeitávamos. Uma das belas coisas do amor.
O segundo casamento também findou. É da vida. E, após alguns anos, chegou o terceiro casamento. E ele, que achava que marido só valia o primeiro, se encantou pelo terceiro. Adorava conversar com meu marido, ficava verdadeiramente feliz quando íamos visitar, abria um sorriso, mostrava todo orgulhoso sua coleção de CDs. Sim, ele era de outra geração, mas soube acompanhar algumas modernidades. Acredito que reconheceu na minha essência o quanto eu também estava verdadeiramente feliz e em casa nessa nova e definitiva relação. 
Eu e meu marido acompanhamos juntos a perda de identidade dele. Maldita doença que vai matando aos poucos a identidade. Mas ele sempre manteve momentos de lucidez. Sempre soube quem eu era. Nunca se esqueceu de mim. Às vezes, poderia se confundir e trocar algum nome, mas sempre sabia e dizia "são minhas filhas", "são meus filhos". Não teve muita consciência da partida do amor da vida dele. Me dizia: "minha filha, hoje vi tua mãe". E eu embarcava com ele nessa realidade ilusória. De certa forma, eu a via também. De certa forma, ela nunca nos deixou, assim como ele também não.
A vida finda, a existência finda. Nossa carne tem prazo de validade. Mas a presença e o amor são eternos. Parte deles habita em mim, eles são parte de mim. Quando a minha carne perecer, espero que vivam na memória afetiva de minha filha, se um dia ela chegar. A morte não encerra o amor, apenas o transforma.


Daniela Annes Spera - Porto Alegre, 18 de junho de 2020

Formação

As manhãs tinham cheiro de café e de pão sendo esquentado na frigideira com manteiga. Pão de quilo, cortado em rodelas, bastante manteiga dos dois lados, na frigideira bem quente de alumínio. Uma iguaria como não há igual. Ainda hoje me faz salivar.
A presença dela, sempre tão bela, iluminava tudo, mesmo que não houvesse sol. Acho que era o sorriso no rosto e o brilho amoroso no olhar. Aquele jeito de acolher e de abraçar com o olhar. Assim começavam os dias. E eu, tão pequena e tão viva, achava que a vida era assim e passava devagar. 
Um jardim inteiro só para mim. Nele vivi muitas aventuras, morei numa fazenda, dei aulas numa pequena vila, corri, tão livre quanto a minha imaginação. Árvores frutíferas, flores, cheiro de pitanga, de limão e de jasmim. Pitty e Bilu, meus peludos companheiros. Embalos na rede, olhando o céu azul. Minhas canelas sempre roxas. Uma infância feliz.
Uma biblioteca repleta de livros. O medo das figuras de cobra e de arraia na enciclopédia. Uma tarântula, igualmente ameaçadora, presa em resina, que era enfeite ou peso de papel, nunca soube. Um toca discos e muitos vinis. E o chão da sala, palco para minhas brincadeiras: da casa da Barbie aos ensaios de ballet, com direito a Ferrorama. 
Minhas panelinhas de plástico recebiam  grãos de arroz, de feijão e farinha. Adorava vê-la cozinhar e ajudar na cozinha. Ajudava a fechar os pastéis, com os dedinhos molhados em água, contornando a massa, como ela me ensinou. E sempre roubava colheradas do guisado delicioso que iria recheá-los. Herdei esse dom, esse amor por cozinhar. Na cozinha, trocamos muitas confidências. Lembro bem da minha surpresa e indignação quando, do alto dos meus seis anos, descobri que as pessoas precisavam pagar até para morrer. Foi ali também que, muitos anos depois, ela me contou que sempre sonhou em cursar Psicologia. Sonho adiado pelo casamento, pela chegada dos filhos, pela vida que passa. Curioso que, na época de decidir minha profissão, anos antes dessa confidência, eu estava dividida entre a Psicologia e o Direito. E, naquele momento, ela não me contou. Acho que não queria me influenciar. Ingenuidade, pois sempre me influenciou. 
Desconfio que minha avó era meio mágica. Para ela, não havia dor ou mal que Anapion, Aspirina, Iodex, Elixir Paregórico, Vick e Hirudoid não resolvessem. E Biotônico Fontoura para abrir o apetite. Se caísse um cisco no meu olho, era Santa Luzia com seu cavalinho comendo capim que salvava. Para a pele, Alma de Flores e Creme Nívea. Para crescer forte, gemada.
Minha avó era uma contadora de histórias e sabia encantar. Contava da vez em que foi nadar em um rio em Rosário do Sul e quase morreu afogada, tendo sido salva por um rapaz muito bonito. Contava da vez que presenciou um rapaz ser literalmente decapitado ao se despedir pela janela do trem e não perceber que ele entraria no túnel. Contava de como o pai dela era especial e seus olhos brilhavam de amor por aquele homem que criou essa mulher tão incrível e, portanto, só pode mesmo ter sido um cara excepcional. Contava da mãe que morreu cedo.
Minha vó sonhava muito, assim como eu. E contava os sonhos. Alguns sonhos estranhamente se realizavam. Como a vez em que sonhou que uma galinha da vizinha havia sido morta e jogada pelo muro para o nosso pátio. Acordou e lá estava a galinha jazendo em nossa grama. Algo parecido me ocorreu uma vez. Sonhei que o carro não pegava e, ao sair para trabalhar, o carro não pegou. Gosto dessas coincidências que nos unem ainda mais. Gosto de pensar que somos parecidas. Natural que sejamos. Parte dela habita em mim. 
Quando bebê, eu só dormia se ela me embalasse e cantasse Terezinha de Jesus. Ainda hoje essa melodia tem o poder de me acalmar. Já maior, antes de dormir, um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Santo Anjo do Senhor, que eu, apesar de não mais rezar, acho a oração mais bonita que há. Incontáveis vezes, ela deitou comigo e esperou que eu adormecesse. 
Quantas vezes eu olhava admirada a penteadeira, enquanto ela me mostrava a caixa de música que guardava seus anéis e seus segredos. Quantas vezes a vi se enfeitar, pentear os cabelos, se perfumar. Quantas vezes a vi cantar, a vi dançar, a vi sonhar.
As manhãs tinham cheiro de café e de pão esquentado na frigideira com manteiga. E a vida tinha cheiro de amor.


Daniela Annes Spera - Porto Alegre, 15 de junho de 2020

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Cresci com ela. Desde que me entendo por gente, ela sempre esteve ali. Fazia parte de um conjunto com outra igual porém maior do que ela, de centro. Era parte da nossa casa e habitava a nossa sala, de canto. Sempre gostei mais dos cantos.
Passávamos muitas horas na sala. Conversávamos, trocávamos confidências, bebíamos o café, assistíamos à televisão. Novelas, noticiários, filmes de terror, desfiles de Carnaval.
A sala era um dos tantos espaços de convívio familiar na nossa casa. Na verdade, convivíamos em todos os espaços. Na cozinha, na sala de jantar, na varanda, no pátio, nos quartos. Convívio era mesmo o nosso forte, não importava em qual cômodo. Essa presença tão forte por tão verdadeira me acompanha a vida inteira.
Mas voltemos à ela, uma das estrelas da sala. Eu a via assim, até hoje a vejo. Sua principal função era guardar o jornal do dia e dos dias anteriores também. Correio do Povo. Sempre se leu jornal em casa. E sempre se conversou sobre as notícias. Depois que saí de casa, guardavam recortes de notícias para mim, de coisas que poderiam me interessar, e me entregavam a cada retorno.
Hoje ela está na minha sala, nesta nova casa que tenho, embora a casa anterior ainda habite em mim. Sempre habitará. O conjunto se desfez, sua companheira estava quebrada, não havia conserto possível. Mas eu a acolhi, com o mesmo amor que sempre tive por ela, e a trouxe para esta nova casa para que seja estrela agora aqui. Não lemos mais jornais impressos. Hoje é tudo digital. Ela deve sentir falta dos jornais, penso. E, para saciar a fome de conhecimento que ela sempre teve, deixo que ela abrigue meus materiais de estudo. E assim seguimos as duas pela vida. Adaptadas a uma nova realidade sem jamais perder a nossa essência.


Mesa de canto com azulejos - Daniela Annes Spera - Porto Alegre, 13 de junho de 2020


Sobre café e amor

Nunca esquecerei como ela me recebia. Sempre com um sorriso e o abraço mais afetuoso que já conheci. Sempre com palavras amáveis, acolhedoras e tão assertivas. Me conhecia de uma vida inteira e sempre me oferecia um café passado, mesmo sabendo que eu preferia chá. Como se me convidasse a experimentar o novo, como se me estimulasse a sair da zona de conforto. Naquela época, eu preferia chá, ainda não havia sido seduzida pelos encantos de um bom café. Sempre após eu recusar o café, ela me preparava um chá. Chá de hortelã, o meu preferido, tal como o dela. Aprendi com ela. Tudo que sei, aprendi com ela. Ela tomava o café, requentado muitas vezes, pois ela passava o café pela manhã e requentava ao longo do dia. E eu tomava o chá. Muitas vezes, o café requentado dava lugar a um café passado na hora. Era a forma dela de mostrar o quanto estimava a pessoa. Era mais uma das tantas formas dela de amar. Conversávamos por horas, sem perceber o tempo passar. Sobre qualquer coisa. E eu me sentia em casa. Eu estava em casa. 
Muitos anos depois, esse mesmo café que representava amor me encontrou de outra forma, preparado por outras mãos. Mãos igualmente importantes e amorosas na minha vida. E, então, nova amante de café, comecei a beber do café dela também. Lamento que tenham sido poucos anos degustando o café dela. Logo ela não pôde mais preparar o café ou o chá. E então foram as minhas mãos que cuidaram dela. Com o mesmo amor. Já não havia mais horas de conversas, pois as palavras se perderam pela obstrução de uma artéria. Mas seguimos com nossas horas de presença e de amor. Ela conversava comigo através dos olhos. E nunca deixou de sorrir. E ela também sabia sorrir com o olhar.


Hoje eu bebo o café e lembro dela. Uma saudade que sempre me habita. Uma ausência que se faz tão presente. Um amor tão grande que transcende a vida. Numa outra casa que hoje é minha e é dela também. E ainda converso com ela. Aprendi a conversar com os olhos. Olhos repletos de saudade e de amor.

Daniela Annes Spera - Porto Alegre, 10 de junho de 2020.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Sol, mar, sal e amor

Ele carioca. Ela gaúcha. Se conheceram no trabalho. Em Porto Alegre. Ele se apaixonou à primeira vista. Ela precisou de um pouco mais de tempo. Entre as afinidades, ambos não gostavam de frio. Muito menos do rigoroso frio gaúcho. Ele sonhava em morar em Cabo Frio, perto do mar. Tinha medo de que ela não quisesse ir pois sabia o quanto ela gostava de morar na capital gaúcha. Porém, contava a ela sobre todos os encantos da cidade litorânea: a brisa do mar, o sol sempre a brilhar, a vida leve. Ela foi se convencendo. Sonhou junto com ele imaginando essa vida paradisíaca. Foram transferidos, fizeram a mudança, compraram casa, se estabeleceram. A vida ia sendo embalada pela brisa. Até que uma noite, ao som de uma chuvinha leve, assistiam a um filme na televisão aberta. Na cena final, faltou luz. Ele estourou, revoltadíssimo. Discursou, gritou, xingou até não mais poder. Ela quieta, observando, surpresa, boquiaberta.

Ela: Amor, você não acha que está reagindo exageradamente? Será que é tão importante assim o fato de ter faltado luz na cena final do filme? Você não acha que está exagerando?

Seguiram-se alguns segundos de silêncio... Só se ouvia a chuva lá fora.

Ele: E você já reparou a droga de cidade em que estamos vivendo?

Um silêncio estarrecedor precedeu o riso que correu solto quando ela entendeu. Ele vinha guardando um descontentamento com uma série de coisas que a cidade não oferecia, com uma série de ausências que ele julgava importantes e que só teve conhecimento quando tornou o sonho em realidade. Ele não podia compartilhar esse sentimento com ela. Afinal, ele a tinha convencido a se mudar e ela o seguira por amor. Como ele poderia confidenciar que talvez morar lá não fosse tudo o que ele sonhava? Foi ela, então, que dividiu com ele um sentimento. Já estava apaixonada por Cabo Frio. Concordava com as ausências que ele sentia. Ela também as sentia. No entanto, eram ausências que poderiam ser relevadas, pois a vida estava repleta de presenças: de sol, de mar, de sal, de amor.

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Escrito em Porto Alegre, em 20 de dezembro de 2013, em homenagem a um queridíssimo casal de amigos, Luiz e Liege, de quem obtive aprovação para publicação. Muito amor para vocês sempre!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Dia da Saudade


Daniela pequena na praia
Dannes, num longíquo verão da década de 80, em Rainha do Mar (antes de adotar Capão Novo como sua praia de veraneio favorita no litoral norte gaúcho)

Descobri meio que por acaso que hoje no Brasil é o Dia da Saudade. É claro que isso me fez refletir um pouco sobre as coisas das quais sinto saudade. Mas o que é saudade, afinal? Segundo o Aurélio, saudade é um substantivo feminino que significa lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia. Diante dessa definição, não me surpreende nada que seja um substantivo feminino. Afinal, nós, mulheres, somos mestres nas artes afetivas e a saudade é muito afetiva.
Sinto saudade de muitas coisas. Das páginas em branco dos cadernos novos aguardando a tão esperada volta às aulas, das tardes chuvosas onde me deliciava com os bolinhos de chuva feitos pela minha avó, das aulas de ballet (ah, como sinto saudades!), dos meus amados avós paternos que já se foram, de andar de bicicleta, de todos os amigos que já passaram pela minha vida e tomaram outros rumos, de passear de moto com o meu pai, do sentar no colo do meu avô para assistir televisão (e tirar uma soneca), de assistir filmes de suspense com a minha avó, de jogar canastra com a minha mãe, dos passeios pela serra com minha mãe e minha avó, de todos os meus irmãos quando eram pequenos (e que sorte ter ainda uma irmãzinha linda com três aninhos!), de dormir e acordar ouvindo música quando dividia o quarto com minha tia-irmã, dos tempos do colégio (o João XXIII foi certamente como um segundo lar), dos sonhos de mudar o mundo que eu tinha quando entrei na faculdade de Direito na PUCRS, dos meus quinze anos, dos meus vinte anos, dos meus vinte quilos a menos… Enfim, saudades de muita coisa.
Porém, a saudade maior é da ingenuidade da minha infância. A ingenuidade, no bom sentido, é característica intrínseca de toda e qualquer infância, ou pelo menos deveria ser. É quando temos a vida toda pela frente, o mundo todo para descobrir, os olhos mais atentos e curiosos. É quando corremos, brincamos, cantamos, pintamos sem nos importarmos nem um pouquinho com a opinião alheia.
É por saber a importância dessas coisas que eu tento cultivar ao máximo e nutrir a criança que ainda vive em mim. É por isso que procuro manter a mente e o coração bem abertos. É por isso que amo as artes. De qualquer forma, amadurecer faz com que se perca a poesia para a crueza do mundo. Mas nem por isso é preciso perder a capacidade de encantamento.
O presente me é muito generoso. Eu achava muito chato ser filha única quando era pequena e rezei tanto, mas tanto, que minhas preces foram atendidas e ganhei cinco maravilhosos irmãos. Me considero uma sortuda por ter uma família grande e maravilhosa. Não estou dizendo que seja perfeita porque perfeição não existe, mas é a minha amada família. A vida também me deu outro maravilhoso presente: meu amado marido. E junto com ele ganhei mais uma maravilhosa família, pessoas sinceras, amigas e generosas, de quem sinto muitas saudades porque moram longe. E cinco sobrinhos lindos e sapecas (um deles chega ao mundo agora no início de fevereiro)! Tenho também as afilhadas mais lindas e amadas do mundo (e também os filhos fofos de todos os amigos)! E tenho ainda muitos amigos: amigos de toda uma vida, amigos de longa data, amigos mais recentes, amigos mais próximos, amigos mais distantes, mas todos eles possuem um lugar muito especial na minha vida. Diante de tanta coisa boa que há no presente, fica até feio dizer que tenho saudades do passado. E sei que o futuro reserva outras tantas boas surpresas.
Sim, eu tenho saudades e valorizo o passado. Mas vivo muito bem com o presente e aguardo com alegria o futuro.
Dannes, 30 de janeiro de 2013

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Deus existe e é piadista

Cena 1

Jovem casal vai ao shopping fugindo da doméstica conversadeira. Sentam na área de alimentação para tomar um suco.

Mulher: Percebo que estou gostando cada vez menos de interagir com as pessoas. A comunicação é muito melhor quando virtual. Por isso, sou fã de e-mails.

Marido: Estás virando uma misantropa.

Cena 2

Após visitarem algumas lojas e efetuarem algumas compras, o casal resolve almoçar. Na mesma área de alimentação, após ter pedido seu peixe com legumes, a mulher procura uma mesa para sentar-se enquanto o marido se serve no buffet.

No meio do alvoroço, a mulher encontra uma mesa e se senta. Em menos de um minuto, o senhor sentado à mesa ao lado puxa conversa.

Senhor: Nossa, quanto movimento nesse shopping. Primeira vez que venho aqui, mas estou surpreso com o movimento.

A mulher sorri e concorda.

Senhor: Sabes que eu gosto de pescar? Esses dias, fui pescar. Não vais acreditar, pesquei uma tartaruga. Meus amigos perguntaram que tamanho tinha a bicha e eu, muito brincalhão, respondi que era do tamanho de um fusca.

A mulher, que detesta ser indelicada, sorri e murmura qualquer coisa. Nesse momento, apreensiva, torce para que o marido chegue logo com esperança de que ponha fim à conversação.

O marido, enfim, chega, mas o senhor não se intimida e continua conversando. Conta que é motorista profissional, que está aposentado, que gosta de viajar. Narra diversas aventuras da época em que cruzava o estado dirigindo um ônibus de turismo.

A mulher, a essas alturas, já teve que responder ao senhor algumas vezes, sempre sorrindo. O marido também não teve muita escolha e se integrou à conversa. E ambos almoçando enquanto o vizinho conversador tomava calmamente um chopp e contava suas histórias.

Findo o almoço, a mulher o marido se despedem do vizinho de mesa que lhes deseja boas festas. Retribuídos os votos, a mulher e o marido se afastam. A mulher já convencida de que Deus existe e é piadista.

domingo, 16 de outubro de 2011

Jardim…

Sozinha e perdida num vasto jardim. A beleza das flores distraia-lhe o olhar, um aroma delicioso capaz de acalmar a alma, cores e cores e cores. Porém ela não esquecera que precisava seguir. Reservou alguns instantes para pensar. Os girassóis pareciam lhe sorrir. No entanto, decidiu seguir a trilha das azaléias, sempre lhe agradara mais os tons violáceos. Lembrou dos pequenos vasos floridos na varanda de casa. Tivera uma infância feliz. Como pudera se perder? Sentiu os sapatos apertarem os pés e, de novo, um aroma adocicado lhe invadiu os pulmões. Percebeu, então, que já estava na trilha das rosas. Começou a recordar que já andara por ali. Não se tratava mais de um caminho sem fim, como antes julgara, e não deveria tardar a encontrar seu lugar.

Dannes – 02 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Da janela…

Da ampla janela, ela avistava o mar. Podia sentir o cheiro da areia molhada, ouvir o barulho das ondas. Podia sonhar. Imaginava quantos barcos teriam cruzado aquelas águas, quantos casais teriam trocado juras de amor avistando aquele mesmo horizonte. Enquanto esperava, divertia-se criando essas histórias, decidindo esses destinos. Quantas conchas teriam sido pegas pela menina de cachos dourados que corria pela orla? Passou horas nesse imaginário até que o sol se pôs. E como era bela a lua que começava a iluminar a noite. Sequer sentia o tempo correr. E só percebeu o quanto era tarde quando sentiu aqueles braços fortes tão conhecidos lhe envolverem.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A saída

Sentado às margens do rio, olhando o horizonte, ele pensava em sua vida, em sua trajetória. Como chegara até ali? Valores perdidos, amizades desfeitas, solidão. Estava cercado sim, mas de pessoas que nada significavam. Pessoas que apenas desejavam o bajular para obter vantagens e para quem muito provavelmente ele também nada significava. Mas fora ele quem optara por esse caminho. Fora ele quem decidira pela ganância. Não poderia culpar mais ninguém. Somente ele dera os passos que o conduziram àquele ponto. Ele abdicara de valores morais, abandonara qualquer escrúpulo, com vistas a alcançar o que julgava mais desejar: sucesso e riqueza sem fim. Agora percebia que sucesso e riqueza talvez não fossem o que ele outrora pensara. Havia custado seus amores, sua família, seus amigos. Sentia que as pessoas lhe respeitavam não porque verdadeiramente merecesse, mas somente porque ele tinha o poder. Sentia-se feio e sujo, como jamais imaginara. Precisava pôr fim àquele sofrimento que lhe corrompia uma alma que sequer sabia ter. Abriu a maleta que repousava a seu lado. Estava escurecendo e tudo silenciava ao seu redor. Somente se ouviu o forte estampido. E o rubro de seu sangue coloriu o horizonte.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Retomando a produção

Depois de um longo período de “seca” que já começava a me preocupar, foi retomada a produção, embora eu não saiba até quando pois não tenho esse controle… As palavras nascem quando desejam e não quando eu desejo.

Abriu os olhos e se viu no meio de um longo corredor. As paredes eram perfeitamente brancas. Não havia uma porta sequer; pelo menos, não enxergava nenhuma. Ficou confusa por alguns instantes, sem saber o que fazer. Decidiu que precisava caminhar. Olhou para frente e para trás, hesitando acerca de qual direção tomar. Optou por seguir em frente. Os pensamentos não davam descanso a sua mente. Percorreu metros e metros e metros. Nem uma porta sequer. Ou janela. Nada. Apenas aquelas paredes brancas, sem falhas, sem riscos, de um corredor estreito que parecia não ter fim. Estava ficando cansada, já perdera a conta de quanto andara. Por vezes, parecia sentir frio, mas a sensação de estar presa naquele lugar, sem encontrar uma saída, aquecia o sangue em suas veias. Estava aflita, prestes a se desesperar. Então, parou, encostou-se na parede gelada, fechou os olhos e respirou fundo, com todas suas forças, procurando se acalmar. E novamente se pôs a andar. Sabia que jamais poderia desistir, tinha que continuar e tentar.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sonhar

Ela podia sorrir e imaginar o mundo com as cores que quisesse. Da cama, avistava o céu por um pedaço da janela. A cada estação, o sol e a lua. Já quase perdera a noção do tempo. De vez em quando, pedia que lhe trouxessem um espelho, queria acompanhar o tempo contando sua história. Ela mesma aprendera a contar histórias. Nelas, podia viver qualquer aventura. E correr por verdes campos ou entre girassóis. E assim passavam-se as horas, os dias. Sempre a sonhar.


sábado, 18 de setembro de 2010

Pecado

Irremediavelmente ele havia pecado. Mãos trêmulas procuravam o maço de cigarros nos bolsos do paletó. Ansioso, confuso, mente perdida em pensamentos. Trôpego, caminhava de um lado a outro, sem se afastar muito da porta que o desafiava. Precisava contar-lhe antes que o tormento fosse maior do que pudesse suportar. Mas como iria confessar? Como encarar aqueles olhos amorosos que sempre o recebiam com alegria? Ensaiou rapidamente mil diálogos, especulou possíveis reações. Mas, de fato, não sabia o que esperar ao cruzar a porta, caso realmente tivesse coragem de lhe falar. Ah! Como pudera? Recair em tão pequena tolice... Tantas e tantas vezes fora advertido. Suas palavras cairiam em total descrédito. Talvez ele jamais se recuperasse. Talvez o melhor fosse calar. Não, não, se já havia fraquejado antes, agora era hora de provar sua virtude. Apagou o cigarro e se encheu de coragem. É como um vício. Ninguém pode ser culpado por amar.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A rosa e o espinho

Contemplando a rosa, ela percebeu. Quando seu olhar se deparou com a rigidez do espinho. O espinho também pode ter sua beleza. O espinho também é belo. Lá estava ele, confiante, todo cheio de si, destemido. O espinho vive à sombra da rosa. Sua missão é protegê-la. E lá está ele, de prontidão, aguardando a oportunidade de defendê-la. O espinho zela pela rosa. Quem com a rosa mexer, poderá com o espinho se ferir. O espinho não vacila, sabe a hora de agir, mas pode se distrair admirando a rosa. A rosa é mais bela que o espinho, mas o espinho é parte fundamental da rosa.

domingo, 27 de junho de 2010


Ela estava perdida, tentando voltar para casa. Pés descalços sobre a terra, sonhos desnudados e um olhar atento na busca de seu caminho. Passos, passos infinitos, cansaço, inquietação. Então, ela desperta um pouco assustada. Reconhece seu espaço e sua aflição. O relógio lhe avisa que o dia ainda não amanheceu. Ela fecha os olhos e tenta novamente adormecer. Respira profundamente, tenta aquietar-se. Ela sabe que está em casa.


domingo, 18 de abril de 2010

...

Já era tarde. Seus passos ecoavam no silêncio escuro da noite vazia. Não havia ninguém na rua. Só se ouvia um leve ruído de folhas tocadas pela brisa fria. Onde ela estaria? Não reconhecia nada. Nem fachada, nem esquina. Como fora parar ali? Decerto, estava perdida. E onde estivera antes? Talvez tivesse bebido. Mas não, não sentia gosto de álcool em sua boca. Amarga era sua saliva. As pernas lhe doíam. Estava assustada. Com passos trôpegos, avançava calçadas. Poderia gritar, pensou. Talvez alguém a acudisse. Ao longe, avistou um gato. Pensou em seguí-lo. Diferença não faria. Ouviu vozes, mas não havia ninguém. Era sua mente que não lhe dava folga. Precisava pensar com clareza. Como sairia dali? Como encontraria seu caminho? Aproximou-se, enfim, do gato. Gato preto, mau presságio. Não era hora para pensamentos tolos. Sentiu frio. Não sabia para que lado ir. Que horas seriam? Em breve amanheceria. Estava com vestido de festa e um belo par de saltos, mas não lembrava de onde vinha. Devia estar maquiada, mas era como se acordasse de um longo sono. Ou seria sonho? O vento desalinhava seus cabelos. Não importava. Ela apenas queria estar segura, mas tudo lhe parecia tão assustador. E, então, lembrou. Mas preferia ter esquecido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dúvida

Aline acordou com uma sensação estranha. Se alguém lhe perguntasse, não saberia dizer o que sentia. Não era enjôo, ou talvez fosse. Um nó na garganta, um aperto no peito... Talvez sim, talvez não. O dia lá fora estava melancólico. Talvez fosse isso. Ela sabia que não tinha motivos para reclamar. Sua vida provavelmente era desejada por muitas mulheres. Tudo parecia estar na mais perfeita ordem e harmonia. Mas estaria mesmo? Quem determina o que é ordem e harmonia?

Aline fez força para levantar-se. Já era tarde, mas, felizmente, era domingo e ela não tinha nenhum compromisso. Calçou os chinelos e caminhou vagarosamente até o banheiro. Lavou o rosto e sentiu a água fria que parecia querer despertá-la, reanimá-la. Olhou no espelho e viu sua face. Já não sabia mais se poderia se reconhecer. Era ela mesma? Ou era apenas o que deveria ser? Parecia pálida, lábios com pouca cor, fios levemente loiros caindo sorrateiramente sobre seus olhos azuis e perdidos que vagavam junto com seu pensamento, talvez buscando algum refúgio. Tentou sorrir, não conseguiu.

Aline voltou ao quarto para vestir-se. Escolheu um vestido floral, na tentativa de disfarçar o que lhe corrompia a alma. Escovou os cabelos e os prendeu com um laço. Pingou algumas gotas de lavanda nos pulsos e no pescoço. E novamente tentou sorrir. Dessa vez, timidamente os lábios se movimentaram. Ela, então, fechou os olhos e respirou profundamente, inspirando o ar com todas as suas forças, e tentando expirar tudo o que doesse ou ferisse.

Com passos imprecisos, avançou pelo corredor que nunca lhe parecera tão comprido como naquela manhã. Enquanto passava pelas imponentes portas que habitavam o frio corredor, quis estar sozinha. Desejou que não houvesse ninguém em casa. Desejou apenas o silêncio. Há dias que são assim, há dias em que nada precisa ser dito.

Alcançou o pequeno vestíbulo que precedia a escada. Desceu calmamente os degraus. Não havia sequer um aroma vindo da cozinha que lhe invadisse os sentidos. Tudo estava escuro. Passou a temer que realmente estivesse sozinha. Mas, afinal, não era o que acabara de desejar?

Aline entrou na sala e passou os olhos pelos vasos de flores. Rosas vermelhas que pareciam úmidas, como recém colhidas. Na lareira, o fogo ainda parecia arder em pequenas brasas. Aproximou-se da janela e avistou o jardim. A chuva caía mansa, fraca, quase sem força. Onde estariam todos afinal?

Não havia música, somente o barulho da água molhando a grama por onde muitas vezes havia corrido e sonhado. Desejou voltar no tempo, desejou não saber ou não entender. Lembrou das longínquas tardes em que brincava entre os rosais. Sentiu o aroma de jasmim das árvores próximas ao portão. Sentiu o gosto do refresco de limão que amenizava o calor daquelas tardes inocentes de verão.

Aline deixou-se cair sobre a poltrona. Não adiantava o vestido, não adiantava a lavanda. Nem as lembranças que percorreram sua mente foram capazes de fazê-la sorrir. E, então, ela compreendeu. Não era que não mais amasse e sim que sua maneira de amar havia se modificado.


Capão Novo, 08 de fevereiro de 2010.
Daniela Annes Spera